6. MEDICINA E BEM-ESTAR 24.4.13

A MEDIDA DA DOR

Cientistas desenvolvem o primeiro mtodo capaz de registrar a intensidade da sensao em cada indivduo, o que permite aliviar de forma mais eficaz esse sofrimento
Cilene Pereira

Uma das maiores dificuldades do tratamento da dor  aguda ou crnica   saber o quanto di. Por se tratar de uma sensao, portanto algo subjetivo, sempre foi um desafio para os profissionais de sade aferir o grau de sofrimento do paciente. No mximo, o doente aponta sua intensidade em uma escala ou simplesmente diz ao enfermeiro, de um a dez, como est a sua dor. Uma novidade descrita em um artigo publicado na ltima edio da prestigiada revista cientfica The New England Journal of Medicine ultrapassa essa barreira e inaugura um caminho pelo qual a medicina poder finalmente comear a medir com mais preciso a dor de cada um.

INDICAO - Hoje, o paciente indica em uma escala seu nvel de sofrimento
 
Cientistas de quatro universidades americanas (Colorado, Nova York, Michigan e Johns Hopkins) desenvolveram um mtodo capaz de indicar quando uma pessoa est sentindo dor fsica e qual o patamar desse sofrimento.  a primeira vez que a cincia obtm algo do gnero  e com uma eficcia que variou de 90% a 100%. A tcnica se baseia no que os pesquisadores batizaram de assinatura neurolgica da dor. Trata-se de um padro de reaes cerebrais manifestadas como resposta a estmulos dolorosos e captadas por exames de imagens aplicados em parte dos 114 voluntrios que participaram da pesquisa (leia mais no quadro). A existncia de um padro nico de respostas  todos as apresentaram da mesma forma e nos mesmos locais  surpreendeu os pesquisadores. Achvamos que haveria diferenas individuais nas manifestaes, disse  ISTO Tor Wager, coordenador da experincia.
 
O modelo foi posteriormente aplicado aos outros participantes e, novamente, mostrou-se instrumento eficaz para revelar a intensidade da dor que cada um apresentava. Uma das provas de que ele capta realmente a sensao foi o fato de que, quando os indivduos receberam analgsicos, no houve registro de dor. A mesma coisa aconteceu quando voluntrios que haviam encerrado relacionamentos amorosos meses antes viram fotos de seus ex-parceiros. A ausncia da resposta, segundo os cientistas,  a comprovao de que o mtodo registra a dor fsica, e no a emocional. E a tcnica mediu com acurcia a intensidade da dor mesmo quando o estmulo variava um grau de temperatura, mas no quando ele era apenas quente e no causava dor, disse Wager.

PROVA - Ribamar acredita que exames precisos daro credibilidade a relato dos doentes
 
Os cientistas acreditam que a assinatura da dor que encontraram possa ser usada principalmente para confirmar a sensao em pessoas que no conseguem report-la com mais propriedade, caso de idosos e crianas, e possibilite o alvio do sofrimento de forma mais eficaz. Mas no pode ser usado como um detector de mentira de dor, ressalva Wager. Algumas pessoas podem realmente senti-la e ela no estar sendo capturada pelo padro que encontramos.
 
No Brasil, o mdico Jos Ribamar Moreno, coordenador do Centro de Tratamento Intensivo da Dor, do Rio de Janeiro, acredita que descobertas como essa abrem uma perspectiva importante. Talvez a divulgao da existncia de exames pelos quais se pode ver a imagem do corpo junto com a funo microscpica do que ocorre no crebro d mais credibilidade ao sintoma de dor e faa com que os mdicos acreditem no sofrimento do paciente, afirma. Os pesquisadores americanos j iniciaram os estudos para traar padres que identifiquem outros tipos de dor, como as geradas pelo frio e processos inflamatrios.

